19/01/2024 às 16h34min - Atualizada em 19/01/2024 às 16h34min

Caso Ana Caroline jovem lésbica momentos antes de ser assassinada

Vítima havia se mudado para Maranhãozinho (MA) para morar com namorada e foi morta pouco depois. Pele do rosto, olhos e couro cabeludo foram arrancados. Crime gerou revolta e reação do movimento lésbico. Ministra da Mulher fala em lesbofobia. Ninguém foi preso.



 

Imagens de câmera de segurança obtidas pelo g1 registraram os momentos anteriores à morte de Ana Caroline Sousa Campêlo, de 21 anos, na cidade de Maranhãozinho, a 232 km da capital São Luís (veja acima).

 

Assassinada em 10 de dezembro logo após sair do trabalho, a jovem lésbica teve a pele do rosto, o couro cabeludo, os olhos e as orelhas arrancados. Ela havia se mudado para a cidade havia poucos meses, para morar com a namorada.

A morte causou protestos de ativistas – com atos em diversas cidades do país – e reação da ministra da Mulher, Cida Gonçalves, que classificou a morte como lesbofobia e crime de ódio contra as mulheres (leia mais abaixo).

A polícia do Maranhão diz ainda não ter como indicar a motivação.

 

"Não existe suspeito identificado. Sem suspeito não há possibilidade de indicar motivação", declarou Lúcio Reis, delegado-geral adjunto operacional do Maranhão, em 17 de dezembro.

 

Até a publicação desta reportagem, ninguém havia sido preso.

 

Vídeo mostra homem semelhante a descrito por testemunha

 

Uma vizinha de Ana Caroline contou à polícia que, pouco antes de desaparecer, viu a jovem com um homem de camiseta branca em uma moto.

A testemunha disse ter visto quando esse homem colocou Ana Caroline no veículo e partiu em direção a uma estrada vicinal que dá acesso ao povoado Cachimbós – onde o corpo foi posteriormente encontrado.

O vídeo obtido pelo Wechannel mostra quando Ana Caroline passa de bicicleta pela Rua Nova Um, via que dá acesso à estrada para Cachimbós. Ao terminar a rua, a jovem lésbica vira à direita. O relógio registra 1h59 da madrugada.

Segundos depois, surge na gravação um homem de camiseta branca em uma moto e faz o mesmo trajeto do que a jovem lésbica.

O corpo de Ana Caroline foi encontrado por familiares próximo à Rua Getúlio Vargas, a cerca de 300 metros da rua onde ela teria virado com sua bicicleta. Os parentes encontraram primeiro sua bicicleta antes de achar seu corpo.

g1 questionou a Secretaria de Segurança Pública sobre o vídeo. Em nota, a pasta disse que trabalha para elucidar o caso.

 

Corpo foi exumado

 

Na terça-feira (16), a Perícia Oficial do Maranhão exumou o corpo de Ana Caroline, após decisão da Justiça. Autora do pedido, a Polícia Civil alegou que o corpo foi enterrado sem nenhum exame criminalístico.

O corpo da jovem lésbica estava enterrado em Centro do Guilherme (MA), cidade natal da vítima e, com a decisão, os restos mortais foram levados para perícia em São Luís.

Protestos e debate sobre lesbofobia e lesbocídio

 

Os protestos em razão da morte de Ana Caroline ocorreram em 10 de janeiro. Nos atos, as manifestantes cobraram respostas da Polícia Civil do Maranhão e mudanças legislativas que protejam lésbicas. Um dos questionamentos ligados à apuração do assassinato é se foi feita perícia na bolsa de Ana Caroline, supostamente usada para enforcá-la.No Instagram, a página Levante Contra o Lesbocídio (veja acima) articula as cobranças pela solução do homicídio, imagens das manifestações e debate o uso do termo "lesbocídio" como uma forma de tipificação dentro do feminicídio.

 

"O Levante Nacional Contra o Lesbocídio é uma resposta das lésbicas em defesa das nossas próprias vidas e da nossa memória. Estão tirando nosso direito de viver e de contar nossas histórias depois que tiram nossas vidas de nós. O que aconteceu com Ana Caroline? Nós queremos saber e não aceitaremos caladas", afirma Natalia Kleinsorgen, integrante do Levante Nacional Contra o Lesbocídio.

 

Uma das ações é a articulação política para a ampliar o dia Dia Nacional de Enfrentamento ao Lesbocídio no Brasil, comemorado em 14 de abril e aprovado em alguns municípios – como Niterói (RJ) – sob o nome "Lei Luana Barbosa".

O texto homenageia Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e lésbica morta após ser abordada por policiais militares de São Paulo em 2016 na cidade de Ribeirão Preto, interior do estado. A Justiça condenou o estado de SP a a pagar indenização ao filho e à mãe de Luana.

 

Pesquisa mapeia crimes com indício de lesbocídio

 

As pesquisadoras Suane Felippe Soares, Milena Cristina Carneiro Peres e a professora doutora Maria Clara Marques Dias, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fizeram um estudo para mapear crimes com potencial de serem enquadrados como lesbocídio.

Divulgado em 2018, o material coletou informações por redes sociais, sites, jornais e outros meios de comunicação de crimes com sobre os casos que ocorreram entre os anos de 2014 e 2017.

Segundo o levantamento, o número de mortes subiu de 16 mortes em 2014 para 54 em 2017, aumento de 237%. Entre os métodos de execução, armas de fogo lideram, com 55% dos casos, seguido de faca, com 23% (veja acima).

 

"Isso é uma pena de morte aceita no Brasil e não estamos prestando atenção nisso. É como se lésbicas não morressem o tempo todo por serem lésbicas. Vemos trans, vemos mulheres num geral, mas não vemos dados de lésbicas e essa dupla vulnerabilidade: feminicídio e lesbocídio", afirma Beatriz Santos, psicóloga comportamental focada em atendimento para mulheres lésbicas e ativista do movimento lésbico.

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